Edição 139

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CRÔNICA

CRÔNICA

MILTON FLÁVIO

ILUSTRAÇÃO: LUCAS MESQUITA


SEM LEGENDA


AS GERAÇÕES E O TEMPO

Analisar as etapas do comportamento da humanidade, levan­do em conta o estilo de vida e as diversas características que marcaram épocas ao longo dos últimos quase cem anos, é como viajar, partindo em uma locomotiva a vapor e chegar a uma mo­derna estação em um trem bala, observando transformações a cada “estação do tempo”. A tecnologia e todos os seus avanços, a evolução da ciência, da medicina, da indústria e a pluralidade de novos conceitos, nos mais variados campos, moldaram a so­ciedade, resultado do que somos hoje. Tais avanços, que tanto nos proporcionaram um mundo mais confortável e repleto de possibilidades, ainda não se comparam a diversos valores ine­rentes ao ser humano, mas que, muitos deles, tiveram maior ex­pressividade no passado. Vez ou outra, deparamo-nos com pes­soas expondo que, antigamente, isso ou aquilo era melhor. Sem dúvida, em muitos pontos, no mundo já tivemos fases melhores, mesmo com mutações ocorridas devido aos períodos complica­dos de guerras e de mudanças na economia em lugares especí­ficos, com ou sem consequências globais. É válido lembrar que, muitas das chamadas melhores épocas surgiram, justamente, após o dissipar da poeira e da fumaça de batalhas. Nota-se, em toda essa linha do tempo, que a valorização do sentimento de união coletiva em busca de um modo de viver melhor não es­teja ligada somente ao fato de que primeiro é preciso sofrer, para depois agir, mas, também pelo propósito de encontrar o verdadeiro significado de existir. Observar o passado também nos dá conta de que, em cada período histórico, sua geração sente-se, em seu vivenciar, como a mais importante. Não dife­rente da nossa. Isso porque, de certa forma, os períodos passa­dos são sempre julgados como inferiores, menos importantes, em relação ao momento em que se vive. Então, deduz-se que muitas gerações já imaginaram ser as mais perfeitas, as mais completas. Sem contar quantas acreditaram presenciar o fim da humanidade, do mundo, entre tantas outras coisas, como a descoberta de vacinas importantes, o fim de muitas doenças, o equilíbrio emocional e a compreensão espiritual. Já a paz entre todos os povos, todas as gerações sempre têm em mente que ocorra no futuro. Mas, vamos voltar às locomotivas?! Imagine agora se algumas dessas gerações distantes tivessem acesso a uma locomotiva que as levasse ao mundo em que chegamos. Muitas pessoas se surpreenderiam por inúmeros feitos e evoluções bené­ficas, antes inimagináveis, principalmente as pessoas do início do século XX. Mas, penso que, principalmente as de décadas seguin­tes, embora existisse êxtase ao nos observar, boa parcela ficaria frustrada pelas transformações ruins, sejam elas pelas atrocidades promovidas pelo homem à natureza, pela conduta cada vez mais egocêntrica de muitos, entre tantas outras. Também haveria as que achariam curiosas e engraçadas algumas de nossas vaidades e muitos de nossos valores. Não entenderiam alguns de nossos hábi­tos, algumas formas de nos vestir, e também a parcela de pessoas que não têm curiosidade ou paciência para ler um texto que passe de poucas palavras. Se pudessem ver o nosso trânsito, pensariam estar tendo um pesadelo enquanto dormiam em seus vagões; da mesma forma, se vissem o descaso de muitos governantes com seu povo. Os apreciadores da musicalidade e da poesia ficariam mal-hu­morados se pudessem ouvir e tentar buscar um contexto em muitos estilos que surgiram. Os cinéfilos de pouco depois da metade do século não aceitariam, tão facilmente, os filmes terem tantos efeitos especiais, mas terem perdido a essência humana, o romantismo, as coisas cotidianas da vida. Em muitos vagões, pais segurariam mais fortemente as mãos de seus filhos e intensificariam mais suas orien­tações, suas bases educacionais e da formação de caráter, ao ver como o mundo ficou mais perigoso e cruel. Não que em suas épocas não tivessem diversos problemas, mas, grande parte questionaria: “Depois de tanta luta e de tantas dificuldades, crises, guerras e fal­ta de estruturas que enfrentamos. Depois de muitos de nós mu­darmos de continente pela questão de sobrevivência, de doarmos nosso suor e nossas vidas inteiras pela evolução, seria mesmo este o vagão que nos demonstra o futuro?”




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